domingo, 27 de janeiro de 2008

A confissão



Juro que não me sinto bem. Olho para trás e tento agarrar-me por um braço, enfio-me num túnel em busca de mim, mas não tenho hipótese, sempre que me espreito, esvoaço por ali sem eira nem beira; novamente tento prender-me, mas perco-me de vez. Julguei que fosse possível. Não existe margem de erro na linha do tempo. Nunca me apercebi da inexistência do retorno. Agora conserto bocados de mim, aqui neste refúgio que nem sequer me pertence, é casa-mãe, de uma mãe que outrora também voou, sem razão aparente. Está na massa do sangue, provavelmente, um gene especial que se transmite, que nos leva a desarvorar assim de repente, sem termos tempo de fazer malas ou de fazer despedidas. O Sérgio ficou para trás, agarrado a uma doença invisível, da qual me fui apercebendo aos poucos, que transformava a nossa vida num inferno. Estranhamente e por mais que me queixasse, confesso que havia fases em que o inferno não me desgostava. Era a única altura em que conseguíamos comunicar, os sentimentos intensificavam-se e aqueles códigos aberrantes que tínhamos construído eram a nossa plataforma de entendimento e ao mesmo tempo uma tábua de salvação. Um vício que nos agarrou silenciosamente, e na penumbra se tornou dono e senhor. Pelo meio há a Maria e a Joana, dois anjos que oscilam entre cá e lá, sou eu a pintar-me de serena e o pai a exibir loucuras; vai ser fácil ganhar a guerra no tribunal, mesmo longe das condições ideais, sou a melhor opção por falta de alternativa.
Contemplo a paisagem a partir de um apartamento minúsculo e os horizontes apertados sufocam-me. Passaram-se meses e realmente experimentei uma vida normal; o retorno à universidade, um emprego de dia, a correria para levar e trazer as crianças da escola, a lida da casa e a promessa a mim própria que é uma fase transitória, de construção de uma vida certa e segura, uma aposta na estabilidade e serenidade, amarras que me seguram e me impedem de voar.
Juro que não me sinto bem. Sou um pássaro ferido, invadido pela loucura. Agora sou eu, a par do Sérgio. Esta não é a minha normalidade. Minto com todos os dentes, finjo que sou dona de outra pessoa, abro sorrisos sem querer. Expludo sem motivo, mesmo quando estamos tranquilamente num parque, mesmo quando os pássaros nos roçam, assobiando para nos encantar. As minhas filhas abrem até não poder mais os lindos olhos azuis, sem compreenderem. Não lhes consigo dizer que é a minha pele a rebentar, sem eu controlar. Mesmo já fora do túnel, continuo a escapar-me por entre os dedos, a voar ainda mais longe. Perco a noção do tempo e do espaço. Mesmo sabendo que não existe retorno.
Hoje acordei numa cama muito confortável, quentinha dentro dos lençóis, num espaço asseado, que não era o meu quarto, nem a minha casa, nem a casa da minha mãe. Da janela, vejo tudo verde, árvores, relva e uma luz clara que me faz esfregar os olhos. As minhas filhas visitam-me, de vez em quando, com os seus olhitos abertos; muitas vezes vamos até ao parque em frente à minha janela, como costumávamos fazer. O azul dos seus olhos já não brilha, nem consigo ouvir as suas risadas; talvez esteja anestesiada de forma mágica, mas de alguma forma desintoxicada.
Deixei de correr, deixei de fugir, já não ligo à normalidade. Provavelmente, cheguei a casa.

"Devil May Care"

No cares for me
I'm happy as I can be
I learn to love and to live
Devil may care

No cares and woes
Whatever comes later goes
That's how I'll take and I'll give
Devil may care

When the day is through, I suffer no regrets
I know that he who frets, loses the night
For only a fool, thinks he can hold back the dawn
He was wise to never tries to revise what's past and gone

Live love today, love come tomorrow or May
Don't even stop for a sigh, it doesn't help if you cry
That's how I live and I'll die
Devil may care

2 comentários:

- disse...

Gostei muito das crônicas e contos. Os textos buscam a origem da linguagem. Parabéns! Sou brasileiro e tenho um blog de poesia e crônicas e imagens. Dá uma olhadinha aí:

www.brancodifatima.blogspot.com

abraços

Mané disse...

O universo blog é fantástico. Boa Rita!
mané