A voz dele domina o ar, por onde quer que passe. Sem levantar o tom. Apropria-se do espaço, das pessoas, levitando acima das multidões. Ecoa antes que alguém fale, transforma-se em ordem, antes que alguém pense. Com uma delicadeza perfeita, envolvida em gestos atenciosos, modos gentis, galanteios inesperados. Traz um chapéu na cabeça, um laço ajustado ao pescoço e as gargalhadas confiantes, de quem vê por cima dos outros. Um dia, uma criança, espantada com tal energia, interrompe-lhe a gargalhada: “Nunca te sentes triste?” O sorriso paralisa e as gargalhadas emudecem. O rosto perde a cor e os gestos enfraquecem. As palavras largam o brilho e balbuciam em segredo: “às vezes...” E a criança insiste: “O que fazes, quando estás assim?” “Rio-me”, responde ele. Surpreendido com a conversa, atreve-se a pensar. Muda de paisagem e enfrenta um céu aberto, intenso, que lhe ilumina o rosto. Segue por uma estrada solitária e contempla a imensidão dos campos calados. Assusta-se com o silêncio, num dia sem vento. Mesmo assim, ganha coragem e decide projectar a voz no espaço, para ter a certeza de si. O eco devolve-lhe a imagem, petrificando-o. Nunca se tinha ouvido. Lentamente, tira o chapéu e desaperta o laço, deixando-os ali, à mercê do acaso.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
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