terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A avenida do vento




























O vento sopra furiosamente, ao longo das árvores que enfeitam a avenida até ao fim. Embaraça-lhe o cabelo, bate-lhe na cara, levanta-lhe as saias. É quase sempre assim, naquela zona. Faça Verão ou Inverno, lá está o vento a assobiar, a meter-se com as pessoas. Ela encolhe os ombros, sem se importar. É um percurso de quase todos os dias, já não sente o vento, nem olha para o número da porta, sabe que é o prédio amarelo mais antigo, com a porta verde de ferro, com aquela maçaneta enorme. É um segundo andar sem elevador, com a campainha avariada. Galga a escada, três em três degraus, fazendo um barulho característico, que a amiga já conhece. Cumprimentam-se como se não tivessem estado juntas há muito tempo, têm sempre segredos para contar e passam, sem esforço, a tarde inteira a conversar. Tornou-se complicado viver sem este confessionário diário; parece que fica um vazio incómodo por preencher, algo que ela não compreende nem identifica.


A casa da amiga não é grande e por sua vez divide-se em pequenos mundos. O irmão fecha-se no quarto, a mãe na biblioteca, a irmã no seu canto e o pai está ausente, apesar de em espírito se materializar dentro daquele espaço. À hora do lanche ouve-se a mãe a pôr a mesa na cozinha, enchendo-a de croissants, manteiga, compotas, bolos. De olhos sorridentes, a amiga pisca-lhe o olho e corre para a cozinha, ainda a tempo de apanhá-la e fazer-lhe um cerco; uma voz de criança em corpo de mulher, a suplicar meiguices.


O vento amaina e a luz esmorece devagarinho, sem ambas darem conta. Os bancos da cozinha tornaram-se duros para quem está sentado há tantas horas. A amiga é uma excelente ouvinte e parece ter uma paciência infinita para as suas queixas. As paixonetas, os dilemas, os estudos, a descrição pormenorizada dos dias, em que a cada minuto, acontece sempre algo novo. É uma sorte ter alguém disponível para partilhar os caminhos que se vão descobrindo aqui e acolá. A amiga convida-a para jantar, sem querer interromper o seu desabafo. Ela sabe que o seu pai nunca vem, nem avisa. É uma vida misteriosa, passada ao longe daquela avenida, muito para lá do vento, que refila ali todos os dias. O único segredo que não partilha com a amiga. A televisão continua avariada, a lâmpada do candeeiro da sala está fundida, a pintura estala nos rodapés e amarelece nas paredes. O tempo parece estar aprisionado naquela sala. Ao jantar, a mãe e os filhos falam normalmente, como se as portas dos quartos tivessem estado sempre abertas. Os assuntos são banais e revelam tanto como uma conversa entre estranhos. Enquanto os talheres tilintam e as bocas devoram a comida, ela perscruta-lhes o olhar. A roupa do pai está a monte, em cima do sofá, sem nunca abandonar o poiso. Um sinal feroz da sua presença.



Os anos passam, na avenida ventosa do prédio amarelo antigo, no apartamento dos quatro quartos fechados, ao contrário do que se desejaria. Ela já não sente a necessidade do confessionário tão amiúde quanto antes; também se cansou da amiga ouvinte e da amarga sensação de nunca a ter realmente conhecido. Separam-se mundos cá fora e cada uma parte à descoberta. O afastamento é natural e indolor; é uma imagem que se vai esbatendo no tempo, os quartos fechados, a mãe de sorriso esfíngico, a irmã excêntrica, o irmão que fazia elevações na ombreira da porta, o pai que nunca chegou para jantar. De vez em quando, ainda relembra a curiosidade acerca do interior daqueles quartos.
Recentemente, as amigas encontraram-se, por acaso. Escolheram a mesma profissão e coincidem no local de trabalho, fingindo a amiga nunca ter conhecido a intimidade partilhada entre as duas. Como se uma borracha gigante tivesse apagado o que ficou para trás. Ela é apenas um rosto novo que circula por ali, como o resto dos colegas. A amiga tem pressa, desvia-se a todo o custo quando a vê ao longe, atira-lhe um sorriso rasgado, proibindo-a de se aproximar. Será que o vento ainda ruge, naquela avenida?
Ela sobe as escadas, absorta em pensamentos. Sem nada fazer prever, tropeça na amiga e percebe que a borracha não chegou a apagar tudo. A necessidade de falar é evidente; a respiração agitada, um leve rubor nas faces, as palavras praticamente inteligíveis. Finalmente conta o acidente do pai; uma perna partida, umas costelas em mau estado, o internamento no hospital e a cena das visitas. Ela, a mãe e um dia, a outra. Ela e a outra, à beira da cama do pai. “Já sabias?”, pergunta, antevendo a resposta. Ela acena afirmativamente com a cabeça. “Porque não me disseste?” A outra comenta: “Iria adiantar?”



O tempo voltou a passar e as duas amigas nunca mais se viram. A velha borracha acabou por apagar o mesmo emprego. No outro dia, ela passou por acaso pela avenida larga e parou em frente ao que julgava ser o prédio amarelo antigo. Um novo prédio tinha nascido, no lugar daquele; a porta verde já não batia e a campainha tinha deixado de estar avariada. Os apartamentos eram novos e espaçosos. As árvores ainda balançavam, parecendo-a reconhecer. Os cabelos voaram e os olhos cerraram-se. O vento ainda continuava a soprar da mesma maneira.

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