terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O comboio



O comboio apita, avisando que está a chegar. A noite vai caindo, de manto cerrado. A lua adormece e a escuridão senta-se na estação, a ver quem chega. Não se vê vivalma. Dentro do comboio, espreitam-se pessoas no fim de um dia de trabalho; a cara macilenta pregada à janela, o pensamento esvaziado, o corpo quebrado e a vontade de não querer abandonar aquele torpor. O cansaço a escorregar, os olhos cavados, as bocas que bocejam e a respiração profunda de quem pede uma pausa ao tempo. Uma mulher que entrou noutra estação, pouco antes. De cor escura, fundindo-se com a noite. O lenço na cabeça, uns andrajos pelo corpo e a idade indeterminada, atrás de uns olhos vivos, escuros como ela. A boca que não se cala, que entra a derrapar em cima dos outros, a sobressaltá-los com palavras, frases sem sentido, àquela hora. As cabeças que se vão virando, de curiosidade, de indignação, de ofensa, de divertimento e o torpor a cair no chão. A mulher a fazer de profeta; a acusá-los de serem tristes, de serem perseguidos pela cobardia, pela hipocrisia. De se alimentarem mal, falando de comida mesmo, e depois do coração e da alma. Proclama a sua diferença, falando cada vez mais alto, apregoando a alma bem alimentada em cada trapo que veste. As pessoas riem-se, outras abanam a cabeça, ao mesmo tempo que o comboio trava e chega ao seu destino. Todos saltam energicamente para a saída, sem deixar de olhar para trás, a observar a mulher que faz das carruagens a sua morada. O comboio parte, ante a estação apinhada de gente. Apesar de continuar noite cerrada, ninguém se incomoda com a escuridão, a calcorrear caminhos até casa.

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