terça-feira, 22 de janeiro de 2008

A psiquiatra


























“Há sempre um episódio para contar”, pensa ela, antes de entrar para a consulta. “ Esta semana não aconteceu nada de especial, mas talvez não seja importante, o que interessa é analisar o que já se passou, sobre outras perspectivas. Lança-se uma frase ao acaso e nasce assunto que preenche pelo menos três sessões.” A porta abre-se, o paciente anterior sai e ela entra, já com a frase preparada. A doutora está em frente, sentada, de pernas cruzadas, a caneta e o bloco em cima do colo, um sorriso reservado e a voz calma. “Então? Como é que correu a semana?” ”Não estive com ele este fim de semana, doutora. Ainda lhe telefonei, mas estava muito ocupado.” A doutora levanta os olhos e o tom de voz, perguntando: “Como se sente?” Ela ri-se, confessando que desta vez, é-lhe indiferente. A doutora deixa escapar a surpresa, muda de posição, põe o bloco e a caneta de parte e comenta, intrigada: “Bom, bom, explique-me como é que conseguiu dar a volta à questão. No último dia estava perdida, chorava baba e ranho... em pequenina... os seus pais? Bloqueavam, de um instante para o outro?” A doutora tenta descobrir razões plausíveis para tal mudança. Até que passa, sem nada o fazer prever, para a sua própria história. Um caso triste, paixão sombria, mal correspondida, um período negro, do qual ainda não vê cor. A voz sai trémula e a respiração torna-se pesada. Parece envelhecer um par de anos, naquele instante. No fim, olha para o relógio e espanta-se, com o adiantado da hora. De regresso à voz branda e ao bloco de notas, termina a sessão, dizendo: “Temos que ficar por aqui. Até para a semana, à mesma hora.”

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