terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O silêncio

“ Detesto festas de família... não suporto aquelas reuniões obrigatórias, com toda a gente a falar em voz alta... que barulho insuportável”, desabafa ele, perante ela. “O empertigado do teu irmão e a vaidosa da mulher... as criancinhas, meu Deus, tão malcriadas... não aguento... e o teu pai, sempre a vangloriar-se... parece que não vales nada... só mesmo a tua mãe... essa pelo menos, não chateia...”, queixa-se ele, debaixo das baforadas de fumo do cigarro dela.


“Há pessoas que sabem apreciar o silêncio. A tua mãe é uma delas. Vou, por respeito a ela. Mas não abuses. E reza para que me contenha, o disparate às vezes é tanto, que um santo não aguentaria”, continua ele, ao mesmo tempo que ela apaga a beata. “Desculpa, mas não estou habituado. Quer dizer, a tanta gente. Na minha família... somos só nós. Ninguém fala assim. Tão alto, pelo menos... existe harmonia e consegue-se ouvir o silêncio”, remata ele, enquanto se dirigem os dois para o carro. “Está na hora. Vamos. Guias tu? Temos tempo. Ah, estamos a chegar. Estaciona aí. Está óptimo. O que aconteceu? Não sais?”, pergunta ele, pela primeira vez, caído em si.

Ela confessa que não está bem disposta; pede-lhe que entre sozinho, que invente uma desculpa. Lamenta o sucedido, mas tem a certeza que ele compreenderá. Neste momento, ela precisa de voltar a abraçar o silêncio.




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