
É depois de virar aquela esquina. Um pouco mais à frente, há uma janela minúscula, sempre entreaberta. Umas cortinas barram o olhar aos indiscretos, esvoaçando de vez em quando pela frincha. A janela é de uma velhota que vigia a rua todos os dias, sem ninguém lhe pedir. Uma doença arrastada, o declínio próprio da idade, deixaram-na frente à janela, única abertura para espreitar a vida. Conhece quase todos os habitantes das redondezas; os hábitos, as manias, os segredos. Conhece, inclusive, a hora a que costumam passar pela rua, a picar bilhete debaixo da sua janela. Nesta azáfama de ver quem lá vem, a velhota dá por uma cara nova, que passa encolhida. Semicerra os olhos, focando a jovem mulher. “É a filha do Horácio... mas hoje foi o funeral dele. Porque não está com a família?” De falinhas mansas, a velhota interrompe o seu passo lento: “O que aconteceu minha filha? Vens tão triste e tão alegremente vestida...” A jovem dá um pulo para trás, encara-a, e sem dizer uma palavra, continua o seu caminho, deixando a velha pendurada. Nos dias seguintes, a jovem passa pela janela da velha, cabisbaixa, mas vestida com cores alegres. Esta, intrigada, comenta: “ Ó menina, isso então é que é fazer luto? Ainda o paizinho não arrefeceu, já andas por aí toda garrida... olha que ele não merece... era um santo homem, Deus o tenha lá bem guardado.” A jovem finge não ouvir, mas as palavras cravam-se-lhe como setas. Como explicar à velha que não aguenta tal infelicidade, que se sente nua, se não se disfarçar? Passado um tempo, a jovem passa, vestida de preto. A velhota repara: “Quem não te conheça, vai pensar que és viúva antes do tempo”. A jovem sorri e responde: “ Já não preciso que reparem em mim.”
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