domingo, 13 de janeiro de 2008

O desconcerto

O homem passa pelos corredores da sala de concerto, coxeando de uma perna. A língua prende-se a dizer “Boa noite” e as palavras seguintes são balbuciadas com dificuldade, em articulação deficiente, tornando incompreensível o seu sentido. Quem passa, já não olha nem vê, habituado à presença diária, à rotina das pequenas frases sem nexo. Transforma-se num personagem invisível, apesar de não desistir de abordar as pessoas, espalhando palavras estranhas sobre o sonho de tocar naquela sala.


Muitos fingem não ouvir, armados de indiferença, outros sentem-se constrangidos com a situação; são raros os que perdem um minuto a responder-lhe. O homem coxo tocou toda a vida, e acredita que também ele tem direito a tocar naquele espaço, perante aquela plateia. Um dia, surge a notícia nos placards. Quem o conhece, mal acredita, mas quem lê o nome, não suspeita o esforço que é subir torto e manco até ao palco, enfrentando uma sala cheia de gente. Uma sala de olhos postos nele. De ar digno, mas desconjuntado, abeira-se do piano de cauda, fazendo uma vénia ao público, que, meio desconcertado, responde com umas fracas palmas, em sinal de agradecimento.


Os primeiros acordes fazem-se ouvir, espalhando-se o som pela sala, forte e vigoroso. Quem conhece o reportório, admira-se de tal coragem. Existem momentos coxos na música. Existem alturas em que a música é inventada, desfigurada, estropiada. Por instantes, igual a si própria. Mas percorre aquele salão sem parar. Do princípio ao fim, até arrancar algo mais que umas fracas palmas, não interessa a razão.


A seguir ao concerto, o homem continua a cumprimentar as pessoas, recebendo eco. De repente, o “Boa noite” é dito de uma vez. E o resto das palavras fazem-se ouvir. Devagarinho, as frases começam a fazer sentido.


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