
A média luz impede-a de confirmar aquela impressão. Uma sensação de “déjà vu” recente, ou talvez vivida ao longo de um período de vida. Contudo, a comida deliciosa, apresentada de forma requintada, o bom vinho e a conversa dos anfitriões entretêm-na, confundindo-lhe as sensações. Talvez já tenha bebido demais. Talvez o cansaço a esteja a atormentar. Talvez a atmosfera a esteja a embebedar. Talvez, talvez. Os olhos piscam, tentando desembaciar as lentes. Talvez esteja a ver a realidade deturpada. Mas mesmo na terra dos “talvez”, prevalece a dúvida teimosa. Aquele homem é a cópia de alguém que conheceu a vida inteira. Um verdadeiro clone. Quer dizer, descontando o exagero, o riso, os olhos, o nariz, a voz, as opiniões, a curta história de vida que ouve naqueles escassos minutos, a certeza surge-lhe agora, iluminada em ambiente escuro. Recua duas décadas e lembra-se do amigo igual. Recua ainda mais e lembra-se das histórias que ouviu de um rapazinho único, feliz no seu bote, a traçar rumos no mar e na areia, que aos olhos dos outros possuía o mundo, ou pelo menos assim parecia. Intrigada, regressa à luz velada, observando-o. O amigo é filho único. Os pais existem. Chegou a ir a casa dele, várias vezes. Cresceram juntos, lá na praia. Às vezes há coisas estranhas. É assim que se arranjam os duplos, embora não passe de conversa de filmes. Os pensamentos são cortados pela gargalhada contagiante, que ela bem conhece. Pela simpatia e o à vontade que a fazem sentir como se o conhecesse de uma vida inteira. Aparentemente escondida na sua timidez, surpreende os amigos, soltando a pergunta surgida do nada: “Tens irmãos?” O desconhecido reage em cena de filme: cospe o vinho, apaga uma das velas sem querer, e no meio dos sopros pesados parece balbuciar, não, sim, não, sim. Por lapsos de segundo a voz some-se e o rubor enche-lhe as faces, esquecendo-se das falas e do resto da encenação. Deixando cair a máscara. Aprisionado entre dois muros, sem espaço para pular. Até que decide, naquele curto momento, ser ele próprio:
- Claro que tenho!
- Alfredo?
- Como adivinhaste?
- És igualzinho! Não sabia que ele tinha um irmão. Desculpa.
- Não tens que pedir desculpa. Dou-me muito bem com ele.
- Nunca te vi, ao longo destes anos todos.
- É normal. Não fomos criados juntos. Mas eu conheço a vida dele.
- Ah...
A luz das velas apaga-se, sem ninguém soprar. Os amigos, atrapalhados, acendem as luzes. A magia dos sabores exóticos dilui-se, junto com o vinho. Os pratos desmancham-se e da apresentação requintada, apenas sobram restos de comida. A mesa tem agora um aspecto vulgar e insignificante, ao pé das emoções transtornadas pela confirmação de um mistério. É uma noite abruptamente cortada, pelo desconforto causado, que ninguém poderia prever. Os amigos saem, em elevadores separados. Mais tarde, ela conta-lhes que teve um sonho sobre o seu amigo. Eram dois irmãos que viviam na mesma rua, em dois apartamentos diferentes, um com pai e mãe, outro só com mãe. O irmão enjeitado pulava, estrebuchava, soltando-se da mão da sua mãe sempre que via passar o irmão com os pais. Temia o pai, que tanto o tomava por estranho nessas alturas como o enchia de mimos e presentes, quando se escapava até à sua casa. Com o tempo, a vontade de ter um pai esmoreceu; resignado, mantinha a sua mão dada com a da mãe, observando o resto da família ao longe. De tanto se cruzar com o irmão apanhou-lhe o sorriso, o gesto e a forma de falar. O resto, contava-lhe o pai. Assim que tomou conta da sua vida, nunca mais deixou cair o pano. Até encontrar a tal amiga.
Os amigos sorriram, desejando nunca ter conhecido aquela história. Continuaram a dar jantares à luz das velas e a mimar o paladar dos seus amigos, apesar de nunca mais terem convidado os dois amigos desconhecidos.
- Claro que tenho!
- Alfredo?
- Como adivinhaste?
- És igualzinho! Não sabia que ele tinha um irmão. Desculpa.
- Não tens que pedir desculpa. Dou-me muito bem com ele.
- Nunca te vi, ao longo destes anos todos.
- É normal. Não fomos criados juntos. Mas eu conheço a vida dele.
- Ah...
A luz das velas apaga-se, sem ninguém soprar. Os amigos, atrapalhados, acendem as luzes. A magia dos sabores exóticos dilui-se, junto com o vinho. Os pratos desmancham-se e da apresentação requintada, apenas sobram restos de comida. A mesa tem agora um aspecto vulgar e insignificante, ao pé das emoções transtornadas pela confirmação de um mistério. É uma noite abruptamente cortada, pelo desconforto causado, que ninguém poderia prever. Os amigos saem, em elevadores separados. Mais tarde, ela conta-lhes que teve um sonho sobre o seu amigo. Eram dois irmãos que viviam na mesma rua, em dois apartamentos diferentes, um com pai e mãe, outro só com mãe. O irmão enjeitado pulava, estrebuchava, soltando-se da mão da sua mãe sempre que via passar o irmão com os pais. Temia o pai, que tanto o tomava por estranho nessas alturas como o enchia de mimos e presentes, quando se escapava até à sua casa. Com o tempo, a vontade de ter um pai esmoreceu; resignado, mantinha a sua mão dada com a da mãe, observando o resto da família ao longe. De tanto se cruzar com o irmão apanhou-lhe o sorriso, o gesto e a forma de falar. O resto, contava-lhe o pai. Assim que tomou conta da sua vida, nunca mais deixou cair o pano. Até encontrar a tal amiga.
Os amigos sorriram, desejando nunca ter conhecido aquela história. Continuaram a dar jantares à luz das velas e a mimar o paladar dos seus amigos, apesar de nunca mais terem convidado os dois amigos desconhecidos.
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