É raro vê-lo fora de um espectáculo. Tão raro, que quando acontece, parece que acabou de passar o seu sósia. Claro que assiste também a espectáculos ao ar livre, mas a verdade é que é diferente cá fora. O tom da pele, a barba por fazer, os cabelos desalinhados, os braços sem poiso, as pernas sem destino, enfim, todo ele caminha desconjuntado à luz do dia, na berma do passeio, a atravessar uma passadeira, a passear-se à beira do rio, a fingir-se um vulgar transeunte, na ausência de um espectáculo. Como se mais nada à sua volta tivesse expressão; as crianças que pulam no parque e que correm desenfreadamente atrás do cão e da bola, os velhos que caminham de mão dada, sobrando as mãos que se vão apoiando na bengala, os jovens enamorados que proliferam como cogumelos nos bancos do jardim, a luz do rio que se mete pelos olhos adentro, os barcos à vela que vão desfilando no estuário, o comboio que passa de vez em quando a estropiar a paisagem e os minutos que correm, invisíveis, cheios de coisas por dentro e por fora e ele ali, fora da sua pele. Um crítico de arte, das artes todas e de todas as formas de expressão. Religião professada diariamente, na cuidadosa consulta da agenda e na escolha criteriosa dos eventos. De tanto assistir, muda-se para dentro da sala de espectáculo. Conhece as cadeiras de cor, plateias, balcões, funcionários e artistas, as várias sessões, os horários de sábado e domingo. A rotina dos espectáculos, da arte e de tudo o mais, hipnotiza-o, congela-o, transformando-o num boneco de cera, reformado da luz cá fora, das pessoas, do rio e da brisa que teima em lhe assobiar. É só o palco que o motiva, o ecrã animado, as pessoas disfarçadas de outros personagens, a acenarem e a perguntarem “Voltas amanhã?”
Nesse dia raro ele aparece, a passear-se à beira do rio, esgotado de tanto espectáculo, roto nas vestes, cego com a luz, sem dar conta do vento e das pessoas que lentamente fazem uma clareira à roda dele. Um pouco atrás, está uma carrinha com uma equipa de filmagem e um guião que tem como personagem central um vagabundo que andarilha pelas ruas da cidade. A história é verdadeira e filmada em situação real. Alguém disse que passava por ali a pessoa ideal e de facto a equipa não perde tempo; acorre ao local e inicia as filmagens, perante uma enorme assistência.
Ele sente a multidão e junta-se a ela, na expectativa de assistir a mais um espectáculo. Toda a gente aponta o dedo na sua direcção e até o realizador lhe faz um gesto, tentando que ele se aproxime. Demora algum tempo até que se aperceba que é a personagem principal. Em pânico, foge por um buraco aberto na clareira humana, sentindo pela primeira vez o asfalto debaixo dos pés, apercebendo-se dos limites da beira do rio, do parque, cujo verde se perde de vista, das pessoas estupefactas, do ar atrás dele e de todas as cores à volta.
É já noite quando regressa a casa. Para ele, parece que passaram anos.
Nesse dia raro ele aparece, a passear-se à beira do rio, esgotado de tanto espectáculo, roto nas vestes, cego com a luz, sem dar conta do vento e das pessoas que lentamente fazem uma clareira à roda dele. Um pouco atrás, está uma carrinha com uma equipa de filmagem e um guião que tem como personagem central um vagabundo que andarilha pelas ruas da cidade. A história é verdadeira e filmada em situação real. Alguém disse que passava por ali a pessoa ideal e de facto a equipa não perde tempo; acorre ao local e inicia as filmagens, perante uma enorme assistência.
Ele sente a multidão e junta-se a ela, na expectativa de assistir a mais um espectáculo. Toda a gente aponta o dedo na sua direcção e até o realizador lhe faz um gesto, tentando que ele se aproxime. Demora algum tempo até que se aperceba que é a personagem principal. Em pânico, foge por um buraco aberto na clareira humana, sentindo pela primeira vez o asfalto debaixo dos pés, apercebendo-se dos limites da beira do rio, do parque, cujo verde se perde de vista, das pessoas estupefactas, do ar atrás dele e de todas as cores à volta.
É já noite quando regressa a casa. Para ele, parece que passaram anos.
1 comentário:
Boa prima!
Curioso como já tens um estilo de escrita. Ao ler alguns dos teus textos, lembrei o que já havia conhecido. Tens estilo!! És uma autora que se identifica. A ideia do blog é excelente.
Estarei atenta.
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